Nem sempre se deve desconfiar das pessoasgraves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés e mais
longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, destas pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.
In “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”, 2005, Quasi
Rui Costa (1972-2012)
2 Dúvida(s):
Sempre admirei a criatividade dos surrealistas. Estou, de novo, a gostar do que escolhes e do que escreves.
n.
Ainda que gostes o texto não é meu. É do poeta Rui Costa que faleceu recentemente.
Beijos n.
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