
Respira. Respira o ar rarefeito dos mortos, o cheiro do sémen nos lençóis, o cheiro a merda das ruas por onde caminhas, das ruas vazias que cedeste ao podre da vontade.
Respira o grito com o teu nome que percorre a cidade a vomitar entranhas de tanto querer meter a mão dentro do corpo, pela boca, pelo sexo, pela pele desfeita de lágrimas.
O sexo dos homens no corpo a ensanguentar o vestido de noiva que dançava só para ti. Escorre merda pelas paredes e há quem diga que é chuva, que veja a limpar a alma. Respira o álcool, as palavras, a vida que não existe, os olhos comidos pelos vermes da morte. Sim respira. Respira devagar, quase sem sentir o bater do coração, quase sem mexer o corpo respira e vai comer esse coração, carne da carne até que morra, foder tudo o que mexe, tudo quanto sorri e respirar a vida e o amor dos outros e morrer sozinha, numa qualquer esquina com os braços abertos de tanto procurar o teu corpo.
Quem não sente não respira e as lágrimas saem secas do estômago e explodem na boca, infectadas, amarelas, putrificadas do nojo que se consome pela solidão.
Sim sou uma puta de verdade, da verdade que só a dor pode trazer e que só as putas bebem porque a solidão lhes enche os dias com a luxúria das crianças mimadas.
Vou viver, eu, puta de verdade, caminhar pela cidade à noite com um copo de gin vazio à espera que venha à boca álcool e não sangue, chorar um todo amor à volta das pessoas, ficar pequena e pura outra vez para amar como amam as princesas.
Último volume, última camada antes dos órgãos, tão fácil de rasgar que sempre que mexe sangra e sangro uma vida inteira. E ainda antes de acordar, ainda antes dos fantasmas esperarem na porta vou cair no abismo da noite só para ter a certeza de que nunca vou ser feliz, só para que morras no dia em que tocares numa mulher. Fode-te animal de desprezo e indiferença e fode-te na admiração que permite abandonar.
Há demasiado mundo à volta e só quero ficar a tocar-te o rosto numa longa pausa a dizer que te amo até à eternidade, por todas as cidades mesmo aquelas sem útero.
Fotografia de Donimanurung
A ouvir Antony and the Johnsons