Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Atrás dos olhos, dentro da alma, onde o coração ainda pode ser mar,
é aqui que dói.
Quando deito à vida uma rede maior do que o homem ainda a conseguir apanhar
o teu corpo na queda, é assim que dói,
quando a rede vem vazia.
E ao virar da esquina,
meu amor, nada, porque o meu destino
está no mar e não em terra.


A partir da pintura de Redon
A ouvir Wait-Alexi Murdoch


Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Respira. Respira o ar rarefeito dos mortos, o cheiro do sémen nos lençóis, o cheiro a merda das ruas por onde caminhas, das ruas vazias que cedeste ao podre da vontade.
Respira o grito com o teu nome que percorre a cidade a vomitar entranhas de tanto querer meter a mão dentro do corpo, pela boca, pelo sexo, pela pele desfeita de lágrimas.
O sexo dos homens no corpo a ensanguentar o vestido de noiva que dançava só para ti. Escorre merda pelas paredes e há quem diga que é chuva, que veja a limpar a alma. Respira o álcool, as palavras, a vida que não existe, os olhos comidos pelos vermes da morte. Sim respira. Respira devagar, quase sem sentir o bater do coração, quase sem mexer o corpo respira e vai comer esse coração, carne da carne até que morra, foder tudo o que mexe, tudo quanto sorri e respirar a vida e o amor dos outros e morrer sozinha, numa qualquer esquina com os braços abertos de tanto procurar o teu corpo.
Quem não sente não respira e as lágrimas saem secas do estômago e explodem na boca, infectadas, amarelas, putrificadas do nojo que se consome pela solidão.
Sim sou uma puta de verdade, da verdade que só a dor pode trazer e que só as putas bebem porque a solidão lhes enche os dias com a luxúria das crianças mimadas.
Vou viver, eu, puta de verdade, caminhar pela cidade à noite com um copo de gin vazio à espera que venha à boca álcool e não sangue, chorar um todo amor à volta das pessoas, ficar pequena e pura outra vez para amar como amam as princesas.
Último volume, última camada antes dos órgãos, tão fácil de rasgar que sempre que mexe sangra e sangro uma vida inteira. E ainda antes de acordar, ainda antes dos fantasmas esperarem na porta vou cair no abismo da noite só para ter a certeza de que nunca vou ser feliz, só para que morras no dia em que tocares numa mulher. Fode-te animal de desprezo e indiferença e fode-te na admiração que permite abandonar.
Há demasiado mundo à volta e só quero ficar a tocar-te o rosto numa longa pausa a dizer que te amo até à eternidade, por todas as cidades mesmo aquelas sem útero.

Fotografia de Donimanurung
A ouvir Antony and the Johnsons

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Voam barcos na tarde a deslizar pela costa numa linha recta de racionalidade lógica. Um cinzento pesado do dia deixou cair aos pés uma pedra aberta, ferida parada, olhos de chão.
Deixa que o sol abra no céu recortes de luz para descansares na praia o que não descansas nos sonhos, anjo perdido nas ondas violentas do quotidiano.
Os Homens vivem encostados aos muros de costas voltadas ao Mundo, a querer esconder os olhos. A querer o limite do muro, sempre o limite do chão. E se tu visses mulher através do teu corpo transparente soltavas o medo e o mar acabaria a lamber as feridas no raio de sol que abriu para te apanhar no susto do amor.
Escorre no ar uma folha de plátano, faz a dança circular até cair na calçada, para morrer aos dedos molhados de suor. Anjo negro de solidão encontra nas ruas o lixo da memória e constrói uma casa na ilha sem saída. Não há saída para as estórias. Elas vão fazendo uma rede de pescador tão apertada que apanha tudo mas onde a água transparente do amor escorre pelas linhas abertas sem nó. E se tu visses mulher o teu riso quando ris um país inteiro saberias o quanto dói, nestes dias, ver-te chorar. E não há ninguém no Mundo que não te consiga amar. E não há ninguém no Mundo para te amar.

A partir da pintura de Joan Miró
A ouvir Jenny Hval - Blood Flight


Tão simples para sentir tão complicado para viver.




Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Caiu um pescador ao mar.
Saiu do azul do céu a nadar sobre o espaço, azul lágrima,
azul salgado e morte. Caiu
o pescador, pele curtida, amarela do sol, caiu ao mar.
Vivia numa caixa nas caxinas a colher as areias com os olhos, a escolher
de manhã à madrugada o mais brilhante búzio do mar
para deixar no coração da mulher do farol.
Agarrou as mãos ao ventre mulher
até sangrar.
Quando o encontraram
despia flores brancas com os dentes de oiro e ria
num riso vermelho de futuro.

Fotografia de Graciano Dias