Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Voam barcos na tarde a deslizar pela costa numa linha recta de racionalidade lógica. Um cinzento pesado do dia deixou cair aos pés uma pedra aberta, ferida parada, olhos de chão.
Deixa que o sol abra no céu recortes de luz para descansares na praia o que não descansas nos sonhos, anjo perdido nas ondas violentas do quotidiano.
Os Homens vivem encostados aos muros de costas voltadas ao Mundo, a querer esconder os olhos. A querer o limite do muro, sempre o limite do chão. E se tu visses mulher através do teu corpo transparente soltavas o medo e o mar acabaria a lamber as feridas no raio de sol que abriu para te apanhar no susto do amor.
Escorre no ar uma folha de plátano, faz a dança circular até cair na calçada, para morrer aos dedos molhados de suor. Anjo negro de solidão encontra nas ruas o lixo da memória e constrói uma casa na ilha sem saída. Não há saída para as estórias. Elas vão fazendo uma rede de pescador tão apertada que apanha tudo mas onde a água transparente do amor escorre pelas linhas abertas sem nó. E se tu visses mulher o teu riso quando ris um país inteiro saberias o quanto dói, nestes dias, ver-te chorar. E não há ninguém no Mundo que não te consiga amar. E não há ninguém no Mundo para te amar.

A partir da pintura de Joan Miró
A ouvir Jenny Hval - Blood Flight

2 Dúvida(s):

Luis Baptista disse...

sempre bonita.

Ana Marta Fortuna disse...

A beleza não está em quem escreve mas sim naqueles que lêem e conseguem sentir a beleza do que é sentir.

Um beijo cereal ;)