Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Respira. Respira o ar rarefeito dos mortos, o cheiro do sémen nos lençóis, o cheiro a merda das ruas por onde caminhas, das ruas vazias que cedeste ao podre da vontade.
Respira o grito com o teu nome que percorre a cidade a vomitar entranhas de tanto querer meter a mão dentro do corpo, pela boca, pelo sexo, pela pele desfeita de lágrimas.
O sexo dos homens no corpo a ensanguentar o vestido de noiva que dançava só para ti. Escorre merda pelas paredes e há quem diga que é chuva, que veja a limpar a alma. Respira o álcool, as palavras, a vida que não existe, os olhos comidos pelos vermes da morte. Sim respira. Respira devagar, quase sem sentir o bater do coração, quase sem mexer o corpo respira e vai comer esse coração, carne da carne até que morra, foder tudo o que mexe, tudo quanto sorri e respirar a vida e o amor dos outros e morrer sozinha, numa qualquer esquina com os braços abertos de tanto procurar o teu corpo.
Quem não sente não respira e as lágrimas saem secas do estômago e explodem na boca, infectadas, amarelas, putrificadas do nojo que se consome pela solidão.
Sim sou uma puta de verdade, da verdade que só a dor pode trazer e que só as putas bebem porque a solidão lhes enche os dias com a luxúria das crianças mimadas.
Vou viver, eu, puta de verdade, caminhar pela cidade à noite com um copo de gin vazio à espera que venha à boca álcool e não sangue, chorar um todo amor à volta das pessoas, ficar pequena e pura outra vez para amar como amam as princesas.
Último volume, última camada antes dos órgãos, tão fácil de rasgar que sempre que mexe sangra e sangro uma vida inteira. E ainda antes de acordar, ainda antes dos fantasmas esperarem na porta vou cair no abismo da noite só para ter a certeza de que nunca vou ser feliz, só para que morras no dia em que tocares numa mulher. Fode-te animal de desprezo e indiferença e fode-te na admiração que permite abandonar.
Há demasiado mundo à volta e só quero ficar a tocar-te o rosto numa longa pausa a dizer que te amo até à eternidade, por todas as cidades mesmo aquelas sem útero.

Fotografia de Donimanurung
A ouvir Antony and the Johnsons

2 Dúvida(s):

Olinda P. Gil © disse...

De facto, há estados de espírito que nos deixam vontade de foder tudo.

Ana Marta Fortuna disse...

Estados de alma Olinda, estados de alma. Porque até uma alma honesta fode tudo.
Gosto de ter ver aqui :)