Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011




O coração dela nasceu num aeroporto de onde sempre vê os aviões partir. A ideia de uma coisa tão grandiosa, cheia de pessoas, todas no mesmo caminho mas com destinos diferentes fascinava a mulher coração do aeroporto.Viveu durante anos a olhar os aviões, anjos de asas metálicas. Voltava todos os dias à mesma hora, ainda antes de o amanhecer e partia pelo final da tarde. Em dias festivos ficava toda a noite. Pensávamos que alguém lhe tinha morrido num avião, outros diziam que esperava uma história e que enlouquecia na solidão dos dias.
Um dia disseram-lhe que estava apaixonada pelo amor. Não a vi chorar, mas aquilo construiu ali, naquele instante, uma pista de aterragem de 31 anos e um camião desgovernado a 200Km/h despistou-se batendo-lhe aos pés do coração.A mulher não morreu mas mais tarde o coração, do susto, parou e ela de mãos abertas agarrou nele e deixou-o ir no primeiro avião rumo a nenhures. Não era bem um sítio para onde se pudesse viajar, mas era um lugar qualquer e para ela isso chegava, porque podia dizer adeus ao amor.Ao que sei parece ter dito adeus várias vezes. Não necessariamente pela ida do coração mas as vezes que um avião partia era sempre maior do que aquelas que chegava e a partida era como um desmembramento da sua pessoa.Levavam bocados enormes, sempre maiores do que a sua pessoa.Ninguém sabia como sobrevivia mas, de uma forma ou de outra, aquela mulher franzina e pequenina arranjava uma forma de se lamber por dentro até curar. Alguns diziam que a saliva dela era feita de água do mar.
Desde que lhe morreu o coração deixou de precisar de cura, estava ela curada como os demais, e passou a ser apenas a mulher do aeroporto.
Ela partiu um dia, cansada de não sentir.
Dizia-se que tinha um veleiro no mar, aportado nas marés altas do oceano e quando deixou o coração partir também o veleiro desapareceu numa tempestade de areia que chegou até ao mar e transformou o oceano num deserto.Ela ficou sem lugar para viver, sem coração, sem veleiro, sem mar.Talvez lhe tivessem dado uma casa perto do sol onde ela pudesse ser princesa antes de morrer, pelo menos só mais uma vez, mesmo sem coração, sem veleiro, sem mar, sem amar.
Partiu com as palavras gravadas na pele, com uma casca grossa nos ossos a pedir uma bebida gelada nas noites quentes de Novembro e com uma mão dentro do corpo a pedir um coração.Da ponte cinzenta ouve-se gritar. É um grito gelado que inunda os dias e ocupa a vida de noite. E mesmo que não acreditem ela vê nascer o sol todos os dias e mesmo contra a sua vontade a vida acontece por alguma razão distorcida do Mundo.
Há palavras que não chegam ao coração mas em algum sítio ele vai arranjar forma de chegar às palavras. Talvez por isso ela grite, a mulher do aeroporto sem coração.
Um dia alguém vai reconhecer e dar-lhe a mão e não vai querer ficar atrás. Vai lançar ao mar uma rede tão grande que vai caber o mundo inteiro, um mundo inteiro de coração e de mar.Um dia. Talvez um dia. Quem sabe um dia.

Para o M. que me ofereceu uma frase, como um grande amigo, em troca de uma história. Obrigada.
A partir da pintura de Edward Hopper

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