Segunda-feira, 14 de Maio de 2012



Nunca tive medo do mar. Desde pequena que lanço a alma à água como se não existisse nenhuma diferença entre sólido e liquido, sempre o tive como fazendo parte de mim, como se o corpo não fosse carne mas mar. Enfrento até as ondas de Setembro sem qualquer respeito pela vida, embriagando-me cedo para ir dormir nas águas escuras da meia-noite. Não chega nunca nenhum frio, quando estou na àgua.
Não posso dizer o mesmo das pessoas.
Amo-as mas assustam-me, despertam-me mas acorrentam-me,
quero-as mas afasto-me. Como se o movimento das relações fosse o próprio movimento das ondas onde ora sou terra ou mar e depois nem sei onde descansar a cabeça, ou mesmo se preciso de descansar.
centoquarantasettesullivellodelmare. Trezentos e sessenta e cinco dias de azul água clara, cento e oitenta dias de laranja sol a cair na praia amarela de mar.
há pessoas que precisam de partir, precisam de encontrar um lugar físico de partida para dizer onde chegaram. deste corpo partem todos os dias histórias de mar e serei sempre um lugar de partida, sempre longe de qualquer mundo, talvez por isso nunca soube dizer adeus. A nada nem a ninguém.

a ouvir Goodbye - Scott DuBois (oferecido ocasionalmente por um querido amigo que não sabe como partir. Obrigada Luís.
Ao D. que me levou ao mar durante a noite.
A ti que me levaste pelo mar numa viagem.
A mim que não preciso de partir.)
fotografia de Larafairie, Breeze em deviantArt.

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012


"Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,
e a noite se faz barco,
e a minha mão marinheiro."

Eugénio de Andrade
a partir da obra de Edward Hopper, Ground Swell, 1939.

do mesmo mar, em cidades distantes, na diferença das històrias e da memòria dos dias. A imaginar,
sempre a imaginar.

Terça-feira, 8 de Maio de 2012


Fui fugir para o mar
deitar os olhos apagados do dia no asfalto.
A correr estrada em golfadas de vento.
Aqui os campos cheiram à infância
onde posso voltar a ser menina.
Estendo o corpo, extensão infinita de céu e mar. Não preciso
de existir porque sei quem sou
na louca lucidez daqueles
que conhecem a paz.
Fui fugir ao mar como a sentir a viagem.
Não sou feita de carne
mas de mar e tenho em mim
todas as distâncias de água.


02/05/2012
Fotografia de Mayene Rosas
A ouvir Radiohead, videotape. "This is my way of saying goodbye"


Segunda-feira, 30 de Abril de 2012


"Olhos postos na terra, tu virás

no ritmo da própria primavera,

e como as flores e os animais

abrirás as mãos de quem te espera."



Eugénio de Andrade


Fotografia de Sally Gall

Domingo, 29 de Abril de 2012


Desconheço a memória do corpo.
Aprendi a não ser nada a querer
tudo, a sentir até vento. Sei beber o salgado
de mar 
nadar nas marés de Setembro e a pele
sabe de cor todas as formas da àgua
onde vivi.

em Veneza, 24 Abril, 2012.


Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.


Somos filhos da madrugada

Pelas praias do mar nos vamos

À procura de quem nos traga

Verde oliva de flor nos ramos

Navegamos de vaga em vaga

Não soubemos de dor nem mágoa

Pelas praia do mar nos vamos

À procura da manhã clara



Lá do cimo de uma montanha

Acendemos uma fogueira

Para não se apagar a chama

Que dá vida na noite inteira

Mensageira pomba chamada

Mensageira da madrugada

Quando a noite vier que venha

Lá do cimo de uma montanha



Onde o vento cortou amarras

Largaremos p'la noite fora

Onde há sempre uma boa estrela

Noite e dia ao romper da aurora

Vira a proa minha galera

Que a vitória já não espera

Fresca, brisa, moira encantada

Vira a proa da minha barca.



por Zeca Afonso, Filhos da Madrugada
Fotografia de Inah Santos @ Inah Santos Photographer

Domingo, 22 de Abril de 2012



Às vezes não magoavam as pessoas mas a ideia que fazia delas. As expectativas são fodidas.


fotografia de autor desconhecido em art.com
a ouvir susanna and the magical orchestra.

Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Sem espaço de sonho,
sem ainda amar, sem forças para acreditar. 
Os fortes
ganharão sempre, acima de qualquer luz
nós, os fracos de coração, continuaremos  a viver na ideia de um Mundo melhor.
quantos anos  até
o principio de um história pura de coragem.
O meu País, onde um dia foi a casa, o meu país
plantou cravos nas espingardas e tudo o que fiz
foi perder o caminho de casa.
Como voltar a um país que não existe?

Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

"...Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.
No mundo tão concreto."

Herberto Helder, Mulher, casa e gato
Fotografia de autor desconhecido na Foz do Douro, Porto.
A ouvir Ani Di Franco - Grey

Terça-feira, 17 de Abril de 2012

"E subito riprende
il viaggio
come
dopo il naufragio
un superstite
lupo di mare"

Giuseppe Ungaretti, Allegria di naufragi

Fotografia de Gunter Brus, Ana, 1964
A ouvir Jenny Hval

Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

Vou cortar os dias em fatias de ironia, deixar de ser mulher de brandos costumes e partir a loiça mesmo nas portas fechadas.Não há nos Homens uma normalidade saudável, não há em nenhum de nós uma verdadeira saúde no sentir e ainda assim continuamos a insistir no que para nós Homens, é anti-natural.
Por vezes não é a dor que doí mas a ausência desta quando deveriamos sentir, significa que em algum momento deixamos de acreditar mas não nos tinhamos apercebido.
Eu posso dizer-te: não me magoaste. E é verdade,
não senti nada. No entanto
esta é a maior dor de todas.

Uma velha sacode as pombas da rua com palmas e correm os passáros pela chuva cinzenta do fim-de-tarde. A febre come-me os lábios e parto para a ignorância, porque posso, porque sou mulher sem sentir, porque não há dor maior do que a minha e neste dia ando de mãos vazias.

a partir da pintura de Marta Penter.
a ouvir Jenny Hval

Quinta-feira, 5 de Abril de 2012


Envelhecer é também estranhecer. Tornamo-nos tão complexos nas nossas particularidades que nos tornamos estranhos perante os outros. Por isso, ser estranho é um modo de envelhecer.

Sendo globalmente aceite que estranhecer faz parte do processo de envelhecimento, eu não sou estranha, estou simplesmente a ficar velha!

Fotografia de Vivian Maier
A ouvir Steve Kuhn, last tango.

Quarta-feira, 28 de Março de 2012




Vou à noite dançar os pés, perder
os sentidos
ofereçer a cabeça ao esquecimento.
Vou às pessoas adormeçer
este mar.

do filme otto e mezzo de Federico Fellini
a ouvir Russian Red -Kiss my elbow

Segunda-feira, 5 de Março de 2012


Eu devia ter escutado Setembro

quando ouvi o medo no meio da chuva, naquela casa sem fim.

Devia ter fechado os olhos ao abismo de perder a palavra

que atravessou o corpo numa explosão de sentido.

Devia ter escutado Setembro quando quiseste partir

maré viva presa na mão. Que agarrei com a violência de uma mãe

à morte das crias, com feridas abertas a lamber

o sangue vivo.

Porque eu amei com a força de setenta mulheres do mar, lancei-me

a ele

e não sei voltar a casa. Arranho

a pele a gritar este amor que consome dias, noites, viagens inteiras de abandono.

Ah mas devia ter escutado Setembro

quando os braços fecharam o gesto a recusar

o único abraço que consegui ser.

Cerraste os lábios até não conseguir sentir o respirar mas até debaixo da àgua

vomito o teu cheiro. Queria ter escutado

Setembro antes que pudesses viver aqui, neste corpo

na frágil inocência do coração. Nunca falamos a mesma língua

porque escrevemos amor em coisas diferentes

e nem todas as flores chegam para construir pontes. Se eu escutar Setembro

já não vai ser amor, mas um reflexo de àgua

da vontade de continuar a amar-te.


Mas não sei voltar ao mar, à casa

lançar a espuma dos dias na cara. Estou perdida

sozinha, longe

e não sei o caminho para lugar nenhum

porque quando abro os olhos todos os lugares são teus.


Fotografia de Pascal Renoux
(Poema em construção)

Sábado, 3 de Março de 2012


Raramente o mundo leva para a noite um dia sem ti. Nesses dias
rebentas os sonhos como uma onda furiosa, pelos olhos lúcidos do esquecimento.
Quando parecia não saber mais
reconhecer a tua voz sou
imposta a esta lembrança dos lábios, de cada músculo ainda vivo no corpo estalado do frio,
cada pedaço de pele a gritar pelas tuas mãos,
cada tensão do sexo cansado. Molho-me de
lágrimas por esta sede de querer sentir um
outro
corpo
vivo
dentro de mim.
E viajo na multidão, sozinha, de olhos fechados
à espera que encontres, outra vez , este lugar porque
não conheço nenhum outro caminho para o amor.


Fotografia de Ana Marta Fortuna em Cesena.
A ouvir Pearl Jam-Black.

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

És uma palavra nova, que não sei pronunciar a querer sair
disparada dos lábios e explodir
nos teus braços.

a partir da obra de Joseph Mallord William Turner, Riva degli Schiavone, Venice: Water Fête.


Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Com 31 anos tenho, por vezes,a estranha sensação de estar perto da morte
ainda com sonhos de menina.


fotografia de Eric Puybaret

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Se ainda sonhar menina
lanças um mar aos pés
no dia que perder
o caminho do sonho?

a partir da escultura de Edgar Degas La Petite Danseuse de Quatorze Ans.
Original pode ser visto de 21 de Janeiro a 03 de Junho de 2012 no Castel Sismondo, em Rimini na exposição de Vermeer a Kandinsky

Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012



Escavaram um buraco nos teus olhos e não deixaram nenhuma água dentro.
não existe
na vida
exercício mais cruel
do que este de explicar a morte
dos teus olhos.

fotografia a partir do espetáculo Vollmond de Pina Bausch
a ouvir we were sparkling - my brightest diamond

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012


Não venhas se sabes que não vais ficar porque o corpo tem a tensão de um fio estalado pelo frio da ausência. Não venhas se sabes que não vais adormecer num recanto meu que sente um pulsar de vida a querer sair da pele sem pedir licença. Não venhas construir os meus dias com frases porque quando choro, a verdade não tem palavras e nem um abraço mata esta dor de tossir a maldade das pessoas. Que às vezes queria beber um frasco inteiro de esquecimento para não saber o quanto o coração é uma estrada plana transparente para os olhos, imediata para as mãos das pessoas, que ousaram olhar para dentro de olhos fechados. Não venhas se sabes que um abraço não chega para acabar com a saudade que não é permitida sentir, se sabes que não se arrancam raízes com a boca que não beijou, que me arrancaram o coração pelas costas e ele teima em voltar ao corpo numa febre louca de querer sentir. De ser doente quer correr pelas ruas brancas a saltar sozinho nas praças, a desenhar palavras que conheças, tão longe da minha língua, tão longe de qualquer estrada. Não venhas que não há carne suficiente para nós os dois, que não há tempo, ou luz para durar o que preciso para ser feliz. Porque nos encontramos onde mais ninguém o fez e porque viemos de onde mais ninguém veio mas não temos mais caminho para andar. E às vezes nem sei se esfregar os olhos ou partir uma cidade para o mar, despir a roupa dos dias e nadar como quem atravessa um oceano a sonhar. Não venhas se não sabes sonhar que na febre desta doença só se sabe sonhar, não venhas se sabes que não és vertigem, que eu ficarei sentada no bar a pedir mais um pouco de gin, mais um pouco de frio, para ver os anjos brancos a dançar na janela da cidade que não é minha e a que não voltarei nenhum dia.

Neva. Ninguém entra ou sai da cidade, as ruas estão fechadas, as pessoas bloqueadas. O tempo parado a ver dançar os flocos como anjos no espaço das casas, entre os homens, entre a história. E se existisse um manto para abraçar eu não saberia ser mulher, num colo a ferver de febre. Não venhas, que a noite é longa e este corpo doente quer ir à rua morrer no meio da solidão branca à procura do coração. Não venhas se sabes que não vais ficar.

fotografia de Benoit Courti
 

MÁRCIA com JP. SIMÕES - A PELE QUE HÁ EM MIM (Quando o dia entardeceu) from márcia on Vimeo.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012



"explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me."

Alejandra Pizarnik (1936 - 1972). Árbol de Diana
fotografia de Pascal Renoux


Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Para explicar esta coisa que é a idade

"Parece que crescemos mas não.
Somos sempre do mesmo tamanho.
as coisas que à volta estão
é que mudam de tamanho.

Parece que crescemos mas não crescemos.
São as coisas grandes que há,
o amor que há, a alegria que há,
que estão a ficar mais pequenos.

Ficam de nós distantes
que às vezes já mal os vemos.
Por isso parece que crescemos
e que somos maiores que dantes.

Mas somos sempre como dantes.
Talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão tão distantes
que nem vemos como estão distantes.
Então julgamos que somos grandes.
e já nem isso compreendemos."

Manuel Antònio Pina
Ilustraçao de Anabela Dias

De uma criança para outra.

Sábado, 21 de Janeiro de 2012


...e sorrio outra vez, porque está sol, porque isto já não é um poema...
versão completa numa página branca

"porta aperta sul cielo e di lá il mondo" Renato Serra


Fotografia sobre Rocca Malatestiana di Cesena (autor desconhecido).
A ouvir Mumford&Sons

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés e mais
longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, destas pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.

In “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”, 2005, Quasi
Rui Costa (1972-2012)

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012













Acredito que os dias possuem anjos,
pequenas estrelas de luz a pontuar os minutos
com subtis rasgos de loucura.
Desde que amanhecemos até ao exacto segundo em que adormecemos
embora de olhos abertos, fechamos a alma à luz dos anjos.
A sonhar somos realidade, que esquecemos
no instante em que acordamos.
A mulher é uma princesa
dentro da hora dos anjos
sempre acordada a ver dragões em bosques encantados.
Quando dorme, há um louco que lhe vela os sonhos
que lhe pertence nessa hora sem nome.
E a magia é algo que acontece quando durante o dia
sonhamos acordados.



Fotografia a partir do filme "asas do desejo" de Wim Wenders.
From my favourite spot in Cesena drinking a cappucino.

"E nós: espectadores, sempre,
por toda a parte, voltados para tudo
e nunca lá pra fora!" Rilke. Da oitava das Elegias de Duíno

Sábado, 14 de Janeiro de 2012

"Para onde pensam que vou ou de onde venho? - perguntaria.
Eu aspiro ao amor."

Eu tenho um amor. É impraticável não o ter, não o sentir, não o querer agarrar com a força da terra. Está ligado ao útero e ao cérebro pela vontade do sangue que um dia foi janela aberta para o mundo. Era sangue porque era vivo. É sangue ainda porque até nas esquinas de um país que não é meu é com ele que construo memórias.
E da janela vejo um chão de estrelas porque sou senhora do Mar.

Herberto Helder - os passos em volta (Holanda)
Fotografia da Piazza del Popolo em Cesena




Domingo, 8 de Janeiro de 2012

Pou toi mon amour bleu

"Se eu pudesse não partir eu ficava aqui contigo. Se eu pudesse não escolher eu juro era este o meu abrigo."

Da música de Margarida Pinto - Ficar (canção de embalar)
A partir da pintura de Edgar Degas - dancers in blue

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

Vai parando o dia devagar, debaixo da terra onde o sol se deitou.
Vai morrendo a luz
em espaçadas largas de um movimento lento, ondular no tempo.
Cai a luz dentro do rio, a pintar as cores de preto e os sorrisos de vento. Os olhos grandes
do animal morto na estrada, o sangue ainda a escorrer quente pelo asfalto.
Parou a mulher, descalça a colorir as mãos de sangue. Dura chora
a loucura da morte, a comer animais vivos
dentro das feridas abertas do coração.
Quando ela partir, não vai fazer falta,
porque a memória dos homens é uma doença da idade que faz esquecer
o quanto o coração viu
com os olhos abertos de amor.

Fotografia de Étienne Jules Marey
A ouvir Sigur Rós - Svefn g englar

Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Atrás dos olhos, dentro da alma, onde o coração ainda pode ser mar,
é aqui que dói.
Quando deito à vida uma rede maior do que o homem ainda a conseguir apanhar
o teu corpo na queda, é assim que dói,
quando a rede vem vazia.
E ao virar da esquina,
meu amor, nada, porque o meu destino
está no mar e não em terra.


A partir da pintura de Redon
A ouvir Wait-Alexi Murdoch


Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Respira. Respira o ar rarefeito dos mortos, o cheiro do sémen nos lençóis, o cheiro a merda das ruas por onde caminhas, das ruas vazias que cedeste ao podre da vontade.
Respira o grito com o teu nome que percorre a cidade a vomitar entranhas de tanto querer meter a mão dentro do corpo, pela boca, pelo sexo, pela pele desfeita de lágrimas.
O sexo dos homens no corpo a ensanguentar o vestido de noiva que dançava só para ti. Escorre merda pelas paredes e há quem diga que é chuva, que veja a limpar a alma. Respira o álcool, as palavras, a vida que não existe, os olhos comidos pelos vermes da morte. Sim respira. Respira devagar, quase sem sentir o bater do coração, quase sem mexer o corpo respira e vai comer esse coração, carne da carne até que morra, foder tudo o que mexe, tudo quanto sorri e respirar a vida e o amor dos outros e morrer sozinha, numa qualquer esquina com os braços abertos de tanto procurar o teu corpo.
Quem não sente não respira e as lágrimas saem secas do estômago e explodem na boca, infectadas, amarelas, putrificadas do nojo que se consome pela solidão.
Sim sou uma puta de verdade, da verdade que só a dor pode trazer e que só as putas bebem porque a solidão lhes enche os dias com a luxúria das crianças mimadas.
Vou viver, eu, puta de verdade, caminhar pela cidade à noite com um copo de gin vazio à espera que venha à boca álcool e não sangue, chorar um todo amor à volta das pessoas, ficar pequena e pura outra vez para amar como amam as princesas.
Último volume, última camada antes dos órgãos, tão fácil de rasgar que sempre que mexe sangra e sangro uma vida inteira. E ainda antes de acordar, ainda antes dos fantasmas esperarem na porta vou cair no abismo da noite só para ter a certeza de que nunca vou ser feliz, só para que morras no dia em que tocares numa mulher. Fode-te animal de desprezo e indiferença e fode-te na admiração que permite abandonar.
Há demasiado mundo à volta e só quero ficar a tocar-te o rosto numa longa pausa a dizer que te amo até à eternidade, por todas as cidades mesmo aquelas sem útero.

Fotografia de Donimanurung
A ouvir Antony and the Johnsons

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Voam barcos na tarde a deslizar pela costa numa linha recta de racionalidade lógica. Um cinzento pesado do dia deixou cair aos pés uma pedra aberta, ferida parada, olhos de chão.
Deixa que o sol abra no céu recortes de luz para descansares na praia o que não descansas nos sonhos, anjo perdido nas ondas violentas do quotidiano.
Os Homens vivem encostados aos muros de costas voltadas ao Mundo, a querer esconder os olhos. A querer o limite do muro, sempre o limite do chão. E se tu visses mulher através do teu corpo transparente soltavas o medo e o mar acabaria a lamber as feridas no raio de sol que abriu para te apanhar no susto do amor.
Escorre no ar uma folha de plátano, faz a dança circular até cair na calçada, para morrer aos dedos molhados de suor. Anjo negro de solidão encontra nas ruas o lixo da memória e constrói uma casa na ilha sem saída. Não há saída para as estórias. Elas vão fazendo uma rede de pescador tão apertada que apanha tudo mas onde a água transparente do amor escorre pelas linhas abertas sem nó. E se tu visses mulher o teu riso quando ris um país inteiro saberias o quanto dói, nestes dias, ver-te chorar. E não há ninguém no Mundo que não te consiga amar. E não há ninguém no Mundo para te amar.

A partir da pintura de Joan Miró
A ouvir Jenny Hval - Blood Flight


Tão simples para sentir tão complicado para viver.




Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Caiu um pescador ao mar.
Saiu do azul do céu a nadar sobre o espaço, azul lágrima,
azul salgado e morte. Caiu
o pescador, pele curtida, amarela do sol, caiu ao mar.
Vivia numa caixa nas caxinas a colher as areias com os olhos, a escolher
de manhã à madrugada o mais brilhante búzio do mar
para deixar no coração da mulher do farol.
Agarrou as mãos ao ventre mulher
até sangrar.
Quando o encontraram
despia flores brancas com os dentes de oiro e ria
num riso vermelho de futuro.

Fotografia de Graciano Dias

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011




O coração dela nasceu num aeroporto de onde sempre vê os aviões partir. A ideia de uma coisa tão grandiosa, cheia de pessoas, todas no mesmo caminho mas com destinos diferentes fascinava a mulher coração do aeroporto.Viveu durante anos a olhar os aviões, anjos de asas metálicas. Voltava todos os dias à mesma hora, ainda antes de o amanhecer e partia pelo final da tarde. Em dias festivos ficava toda a noite. Pensávamos que alguém lhe tinha morrido num avião, outros diziam que esperava uma história e que enlouquecia na solidão dos dias.
Um dia disseram-lhe que estava apaixonada pelo amor. Não a vi chorar, mas aquilo construiu ali, naquele instante, uma pista de aterragem de 31 anos e um camião desgovernado a 200Km/h despistou-se batendo-lhe aos pés do coração.A mulher não morreu mas mais tarde o coração, do susto, parou e ela de mãos abertas agarrou nele e deixou-o ir no primeiro avião rumo a nenhures. Não era bem um sítio para onde se pudesse viajar, mas era um lugar qualquer e para ela isso chegava, porque podia dizer adeus ao amor.Ao que sei parece ter dito adeus várias vezes. Não necessariamente pela ida do coração mas as vezes que um avião partia era sempre maior do que aquelas que chegava e a partida era como um desmembramento da sua pessoa.Levavam bocados enormes, sempre maiores do que a sua pessoa.Ninguém sabia como sobrevivia mas, de uma forma ou de outra, aquela mulher franzina e pequenina arranjava uma forma de se lamber por dentro até curar. Alguns diziam que a saliva dela era feita de água do mar.
Desde que lhe morreu o coração deixou de precisar de cura, estava ela curada como os demais, e passou a ser apenas a mulher do aeroporto.
Ela partiu um dia, cansada de não sentir.
Dizia-se que tinha um veleiro no mar, aportado nas marés altas do oceano e quando deixou o coração partir também o veleiro desapareceu numa tempestade de areia que chegou até ao mar e transformou o oceano num deserto.Ela ficou sem lugar para viver, sem coração, sem veleiro, sem mar.Talvez lhe tivessem dado uma casa perto do sol onde ela pudesse ser princesa antes de morrer, pelo menos só mais uma vez, mesmo sem coração, sem veleiro, sem mar, sem amar.
Partiu com as palavras gravadas na pele, com uma casca grossa nos ossos a pedir uma bebida gelada nas noites quentes de Novembro e com uma mão dentro do corpo a pedir um coração.Da ponte cinzenta ouve-se gritar. É um grito gelado que inunda os dias e ocupa a vida de noite. E mesmo que não acreditem ela vê nascer o sol todos os dias e mesmo contra a sua vontade a vida acontece por alguma razão distorcida do Mundo.
Há palavras que não chegam ao coração mas em algum sítio ele vai arranjar forma de chegar às palavras. Talvez por isso ela grite, a mulher do aeroporto sem coração.
Um dia alguém vai reconhecer e dar-lhe a mão e não vai querer ficar atrás. Vai lançar ao mar uma rede tão grande que vai caber o mundo inteiro, um mundo inteiro de coração e de mar.Um dia. Talvez um dia. Quem sabe um dia.

Para o M. que me ofereceu uma frase, como um grande amigo, em troca de uma história. Obrigada.
A partir da pintura de Edward Hopper

Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011

Se eu ficar muito tempo ao sol vou ficar com escamas de luz e se eu ficar muito tempo debaixo de água vou ficar com cores azuis na pele e se eu ficar muito tempo longe de mim talvez o coração se esqueça de sentir e o corpo se desprenda do chão com ondulações de mar.

A partir da pintura de Paula Rego
A ouvir M 83

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011



Existem momentos em que tenho a certeza de que não consigo passar nem mais um dia sem dizer que te amo.


A ouvir of monster and men

Domingo, 13 de Novembro de 2011

Sangra a pele de te chorar dentro dos lençois.
Desfaço o corpo à força de tanto desejar o teu abraço...e ando pela cidade, a esbarrar em vidros, a cortar os dias aos pedaços, a caminhar no meio da chuva, sempre à tua procura.

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Rebentam na praia as memórias,
com as ondas do mar
sob o olhar das Plêiades.
Ocupa-se de um vazio palpável a dimensão do corpo
construído em câmara lenta.
Caí nas rochas a solidão daqueles que moram
no frio de uma única estação.
Blocos de água turva a escorrer nos vidros
após a lágrima no sangue. Pedaços de mão a
sentir a palidez do pânico. Devagar, ela vai chegar à tua cara e ainda antes de fechar os olhos não vais ver azul, porque é noite
porque não estás vivo
porque não existes
porque esqueces sem lembrar nunca
que o amor é a única coisa que faz viver. E, antes que seja tarde demais,
há uma estrela que caminha à tua volta
ainda que a distância se cultive
imposta
há palavras que vão ser repetidas até ao esgotamento
mesmo que feches o corpo ao gesto.
Desenham-se nas linhas, asas brancas e os Homens
ouvem chamar o teu nome. E eu vou continuar
a dizer-te a única palavra que aprendi.

listening love will tear us apart by Susanna and The Magical Orchestra

Domingo, 23 de Outubro de 2011

Vem buscar
à planície a lonjura de um corpo
à madrugada, pintada de eternos retornos,
a verdade da carne.
Vem buscar à cidade
as palavras dos anjos, que espalham cidades
aos Homens.
Buscar uma mulher, aquela mulher. A de olhos transparentes, vidro atrás da chuva.
Rasga horas, as horas, todas as horas, numa oração
a quebrar a pedra bruta do teu coração.
Amor que és da mulher e de todos os outros
apenas cai do rio para o mar um fio de lágrima
vem buscar à tarde
à noite lua quente o dia impróprio a viagem nunca começada uma hora de uma vida toda a caber nas mãos,
este corpo a cair palavras pelos montes castanhos

desmanchando um riso inteiro.
Vem correr uma vida, que os olhos apenas conseguem ver com o azul dos teus.

Ilustração de Joe Sorren

Sábado, 15 de Outubro de 2011





O meu pai, quando eu era pequenina, de todas as vezes que algum brinquedo se partia, ele colava pedaço por pedaço até todos os cacos serem um todo, até serem um brinquedo outra vez. Fazia isto com tudo o que se estragava na minha vida.
Hoje, desde que cresci, já não tenho brinquedos para partir, e tudo o que cai ao chão o pai já não consegue arranjar. Hoje nem sei o que assusta mais, se é o facto de eu estar a crescer ou o meu pai a envelhecer.
Eu vou caminhando sozinha com as memórias a envelhecer, com o corpo gasto de mãos vazias a esconder na noite os fantasmas, a sonhar com uma janela para o Mar.

Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

Pesa no corpo o Evel do jantar como uma noite carregada de grilos acocorados em árvores. Da mão para o braço, do braço para a língua, para os lábios, para os olhos, dos olhos para cair de noite fechada o vinho a cair pelo sangue.
Vim o caminho todo a pisar os riscos do chão, os espaços da calçada, no pensamento que se o fizesse até chegar ao carro tu voltarias, um dia. Desde que amanhece até ser de novo escuro ocupo os dias de magias a tentar fintar o pensamento, como uma dança virtual de tango, quantas vezes dou com a cara no chão, a bater com o corpo todo no piso aberto que ficou depois de teres partido. Nunca caio verdadeiramente mas dói como se o sol não fizesse diferença nenhuma da lua, e a grandeza das coisas estivesse apenas no gesto que faço para te alcançar. Se parar o Mundo pararia também só para me ver chorar quando à noite venho sozinha para casa depois de tanto ser marioneta. Pisei os riscos todos, até aqueles que não queria ver. Foda-se, pisei todos como uma louca a encontrar o espaço para calar, para me certificar que num qualquer pensamento mágico, num qualquer dia, num qualquer canto da puta desta cidade um dia me apareces no escuro amarelo da noite a brilhar como duas luas, sem espaço que se consuma com o tempo.
Ainda que o meu corpo não fosse teu e as minhas mãos não fossem azuis para poder sentir alguma coisa, qualquer coisa nem que fosse o jantar de hoje. Nem que fosse para me esquecer que o vinho que me corre no sangue é teu e que esta loucura que trago dentro da carne é tua e que o choro que sinto é teu, assim como é teu este corpo e esta alma e este querer e se algum dia me vires a dançar em cima das mesas da rua é para ti, e quando sorrir vai ser porque fechei muito os olhos para te ver e quando amar vai ser porque fechei tanto o corpo para te poder sentir. Esquecer para poder descansar. Só queria poder dormir sem que venhas nos sonhos soprar ao ouvido o teu nome. Eu sei o teu nome, eu ainda sei o teu nome.
Deixa-me dormir. Só por hoje porque preciso tanto de descansar.

A ouvir Angus & Julia Stone - Lonely Hands

Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

Fico daqui a olhar, a imaginar o espaço do gesto, o volume que ocupas nas coisas.
a medir cada centímetro à espera que todos os dias fiques mais pequeno.
ameixa gorda pronta a estourar a descer o rio à sede do mar.
e não há dia, em que antes de fechar os olhos, não faça a mínima ideia para onde ir ou em que cama me deitar ou que palavra dizer ou que grito soltar ou que luta morrer, sem que os teus olhos sejam dois faróis azuis a pintar a noite de luz.

Quando partir não quero levar nenhuma cidade comigo.

Fotografia de benoit courti


Um espaço cheio da tua ausência.



Fotografia de Raimundo Fortuna (Serra de Montemuro)

Domingo, 25 de Setembro de 2011

Há pessoas a deixar cair bocados de coração na rua.
Cria-se uma corcunda de tanto olharem o chão.
Com o tempo deixam de existir.

Esta cidade sempre foi mais branda com aqueles que nunca perderam o coração.
A vida será sempre mais leve para os tais que nasceram com o coração ligado ao cérebro por auto estradas de racionalidade.


Fotografia de Benoit Courti
A ouvir devendra banhart "my dearest friend"

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

Vou inventar um espaço, para não deixares de existir. Permaneceres na minha pele debaixo das minhas veias a escorrer no sangue, vou inventar uma história todos os dias para ti, criar um diário com todas as coisas que não te posso contar. Vou inventar. Inventar a memória das tuas mãos a percorrem o meu corpo a deslizar pela pele. Meu amor vou inventar, criar, implorar mil formas de misturar a dor no nevoeiro da ponte, misturar álcool com sangue e lágrimas e pedaços caídos pela cidade e pelo país. Apanhar cada bocadinho e pendurar na parede inventada para te lembrar. Sim uma parede, uma casa, uma rua, uma memória só para ti, para quando abrir a porta a solidão não me bata gelada nas mãos. E enquanto dormes vou passar todos os dias pela tua casa para te dar um beijo de boa noite e esperar que a lua e as estrelas te acordem em paz. E antes de dormir vou abraçar-te como sempre o fiz na esperança de que um dia surjas vindo do nada como se nunca tivesses partido.
Vou escrever papéis com pequenos poemas por todos os cafés da cidade a dizer o que te amo, fazer um mapa para me voltares a encontrar, para não me questionar nunca mais onde foi que nos perdemos.
Vou guardar-te como se guarda uma estrela do mar caída do céu a brilhar sol.
Guardar-te algures no espaço da minha dor gelada. Guardar-te dentro dos olhos. Guardar-te.

Fotografia de Anna Aden

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

Tempo à espera que não vivas demais, não aqui, não neste mundo, não no meu coração.
Vais ficando como resto de memória do futuro que sonhei contigo.
Eu não quero esquecer o teu nome, fiquei com as mãos azuis de segurar as tuas lágrimas.

Nunca ninguém se vai apaixonar por uma muher de mãos azuis.

Fotografia de robert and shana parkeharrison

Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

Apetece um lugar dentro do vento do mar



A winter day on the Galata Bridge, 2007 by Nuri Bilge Ceylan(fotografia)
A ouvir Laura Marling, Rambling Man


Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011






Chove na casa do Sol.

"- Eu amo-te. Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar. "
Em Adília Lopes, A Bela Acordada



A ouvir Laura Marling , My manic and i




Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais,
muito mais, do que mereci.

Maria do Rosário Pedreira
A ouvir Patrick Watson

Fotografia de Linda Connor

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

Pedra a rasgar ventos, a cortar mar azul em céu amarelo vómito, em barco lamacento de sémen a fecundar ovários numa esquizofrenia homossexual.
A manhã deixou-se chorosa na chuva empoeirada da noite bruta de tumultos vindo do profundo da escória humana e havia um cão a ganir forte, ecoando em todas as arestas das tripas mais frágeis da mulher mais usada da cidade.
A cidade. Foi sempre noite amarela, húmida a escorrer bichos pelas paredes num cheiro putrificado dos corpos armazenados no coração, sem respirar. Sem respirar ficavam os gatos encostados às portas abandonadas dos prédios mortos das gentes que se esqueciam onde moram pela combustão rápida da memória depois de nascidas numa loucura fosforescente. Fósforo. Ardia como fósforo encostado à pele, tumescência fétida em sexo hirto de vermes, náusea., nasceria um nojo impoluível do beijo, náusea, uma tontura inaudível, imprevista, náusea, vezes sem conta, indeterminada, intemporal, imperiosa, imposta. Postas moles de música cadente, a cair no chão, em socos pastosos a rebentar o útero. Cai em espasmos secos na rua.
O homem volta-se invisível ao amor, parede de espelhos a raspar peles em muros. Havia um sítio onde costumavam pendurar as coisas bonitas, onde se adormecia em tons claros da manhã.
Vai devagar. Corres tão depressa na floresta.
Transparente em água clara uma mulher visível de vermelho sangue a segurar o homem invisível. Vai abrir a chuva.

Domingo, 21 de Agosto de 2011

Há dias em que a dor é tão forte que parece que o Mundo não pode acordar nunca mais.






"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.."
Sophia de Mello Breyner

Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

Agosto

Ela contou uma história antes de adormecer:

Dias quentes de Agosto debaixo da chuva que não entra nas janelas. Frio, chuva em antagonismo sentimental do choro que não engoles, tenho uma mão parada sobre a cabeça e não sei o que lhe fazer porque te quero agarrar o pescoço e tu não estás e eu não te vejo.

Tenho a certeza que não me vês mesmo quando ficas parado à beira do mar e os teus olhos azuis são a única coisa que se vê durante o fim da tarde e os peixes tomam o azul do céu e os teus olhos continuam parados a olhar tudo o que eu não sou e nunca sabes dizer o que vês quando olho dentro do mar à espera que me fuja um pé para a água e outro para o coração numa gravidez histeria sem anel de noivado e bolsos descalços.

Mudaste a ranhura da porta da entrada e como estava virada de pernas para o ar não conseguia ver o sol do outro lado sentei-me na parede encostada ao chão à espera de ouvir a tua voz o teu riso ou qualquer coisa que me lembrasse o sol, adormeci dias com o zumbido agudo das alturas e do salto grande que tomei quando a cabeça se esmagou no vento que se erguia nas madrugadas altas de loucura.

Quente, estava tudo tão quente e os olhos paravam todos na minha cabeça e num rasgo de sonho a tua pele ainda estava quente e não havia no mundo voz igual à tua e tu pegavas-me ao colo e eu não pesava nada e sentia um vendaval de água a cobrir-me o corpo. Vinhas do Mundo para o mundo pelo mundo e entre nós não havia espaço nem para entrar um suspiro e todo o lugar onde não existia lugar nenhum era calor chuva e as mãos eram tão grandes que agarravam os corações mais corrosivos. Como o teu.

Corro as ruas à procura do teu cheiro como cão vadio abandonado em Agosto.
Corrói-me as entranhas esta chuva quente, o frio da palavra abandonada, esquecida, calcada, arranhada, arrancada, querendo, chamando, gritando em voz rasgada que oiças um verbo com pronome pessoal, impessoal, irreal, impróprio de se consumir com o sexo, antes da expiração subjectiva da validade.
Quanto tempo depois de morreres posso comer a tua alma?


ilustração de Anabela Dias